sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Uma carta nunca enviada

Estranhas amigas


 Hoje lembrei de você e me perguntei onde estaria. Muitos anos já se passaram, mas ainda lembro do nosso último abraço,do nosso último tchau, do nosso último momento juntas. Esta não é uma carta sobre a lembrança de um amor romântico, nem para alguém que foi para um outro plano, e sim da lembrança do que um dia foi uma profunda amizade.

Nos conhecemos ainda no pré, em uma creche que mais parecia uma fazenda, éramos o oposto uma da outra: eu, calma, tranquila, muito tímida e reservada, apesar de sempre estar cercada de pessoas; Você… ah, você era explosiva, mas de um jeito bom. Tinha respostas para tudo e não tinha nem um pouco ( um pouquinho que seja) , de medo de se impor. Eu com meu cabelo cacheado, sempre rebelde; você com o cabelo mais liso que já vi em todos os meus 18 anos, com uma franja que sempre admirei. 

E parece que os opostos realmente se atraem,porque não me lembro de não estarmos juntas. Tenho uma foto da nossa última festa junina nessa mesma creche onde nos conhecemos: nós duas pulando feito loucas no pula-pula que até seis anos atrás, ainda estava no mesmo lugar. 








Quando minha mente fica confusa, arrumo meu quarto e de vez em quando

encontro essa foto. A coloquei em um lugar especial: um livro com fotos dos meus melhores momentos da infância, onde você aparece muito.

Também guardo a lembrança do nosso primeiro dia de aula na escola. Olhamos uma para a outra com um olhar cheio de emoção, ansiedade e alegria por viver mais uma etapa juntas.

Lembro de quando eu caí de bicicleta e me ralei toda; você me abraçou, perguntou se eu estava bem e, depois da resposta positiva, fez piada para aliviar a tensão, me fazendo rir quando eu só queria chorar. Você me conhecia bem demais e sabia que eu odiava chorar em público.

 “ É história pra contar”, me disse. 

E aqui estou eu, contando.

 Enfim… existem milhares de histórias nossas - e sinto que não existam palavras suficientes para narrar todas elas.

 Entretanto,há um momento que nunca esquecerei: nossa formatura. aproveitamos muito; tiramos fotos que nunca vi, a senhorita me fez dançar quando eu tinha medo até de andar em público - porém, talvez pela primeira vez não senti vergonha. Quando deu a hora tentei sair de fininho porque sabia que a despedida seria dolorosa. Ainda assim, no meio de tantas outras pessoas, você me viu - você sempre me enxergava.

 Brigou comigo por tentar ir embora sem me despedir, depois me puxou para um abraço forte, “abraço de urso”,  e me disse palavras tão bonitas, que carrego na alma até hoje.

 “ Nunca te esquecerei, mesmo distante. Conte comigo pra sempre”.

 E ali, no meio de uma festa neon, eu desabei. Chorei até chegar em casa.

 Uma parte de mim, lá no fundo, sabia que nada mais seria igual, e meu coração ficou tão apertado que parecia não caber no peito. 

Lembro-me de minha mãe desesperada, sem saber o que fazer - afinal por que uma menininha de dez anos chorava tanto por uma festa acabada? 

Mas, não era só uma festa. Era uma história que parte de mim não queria que chegasse ao fim. 

 Um ano se passou e ainda conversávamos, mesmo em escolas diferentes. Um dia, enquanto eu voltava a pé, você me viu pela janela do ônibus e decidiu descer - mesmo longe de casa - só para me acompanhar. Como dito anteriormente você sempre me via, mesmo na multidão.

 Esse dia foi incrível. Rimos, corremos, fizemos piadas e colocamos o assunto em dia.

 Parecia tudo tão fácil… até que acabou.

 Aos poucos, o assunto foi morrendo, a conexão se perdendo e a história sendo apagada. Até que desaparecemos da vida uma da outra.

Anos depois, lembrei de você e a saudade apertou - o que é estranho, porque moramos tão perto e, mesmo assim, estamos tão distantes. 

Encontrei seu número ainda salvo e mandei uma mensagem… 

Quem é?”,você perguntou.

Respondi, disse que não tinha te esquecido e que era muito especial para mim e que não queria que nossa amizade morresse com o tempo. 

Mensagem visualizada.

 Digitando… digitando…

A ansiedade bateu forte e… nada.

Você nunca mais me respondeu.

O que eu fiz? O que aconteceu? Por que me ignorou?

Meu mundo caiu e naquele momento percebi que tinha te perdido.

Anos depois, te encontrei no ponto de ônibus. Quantos anos se passaram? Não sei ao certo. Tínhamos mudado, eu com o cabelo super curto e volumoso, vivendo meu melhor momento comigo mesma; você não tinha mais o cabelo castanho. Agora era ruivo, curto, sem sinal da franja - aparentemente, também vivendo seu melhor momento.

Tentei, mais uma vez, uma aproximação. Sorri. Acenei.

E novamente fui ignorada.

Parecia que junto com nossos cabelos, nossas memórias também tinham sido jogadas fora.

Cansada de tentar, aceitei. A partir dali éramos estranhas, nunca antes apresentadas.

Quando uma caminhava por uma calçada, a outra atravessava.

Quando uma pegava um ônibus, a outra esperava o próximo, mesmo que chegasse atrasada.

E assim, cada uma seguiu sua própria vida.

Crescemos e nunca mais te vi. Você ainda mora aqui no bairro?

Ontem vi sua mãe - ela não mudou.

Não lembro mais da sua voz, nem imagino sua aparência atual, mas ainda lembro sua data de aniversário: 31/05/2006.

Hoje com 19 anos, e eu, 18. 

 Mas só queria te dizer que hoje lembrei de você - e me perguntei onde estaria. 

 Da sua antiga amiga, hoje desconhecida, um beijo e se Deus quiser : até algum dia.


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