sexta-feira, 6 de março de 2026

Uma garota de hobbies. Parte 2

 

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Minhas pequenas grandes paixões


2. PATINS ? - ...

Dizem que toda história tem um começo, meio e fim.
Mas eu não sei onde essa deveria começar - ou melhor, não me lembro.

A vida inteira tive patins guardados em meus armários.
Não sei quem ou o que despertou em mim a vontade de patinar. Não sei quem comprou meus primeiros patins,nem ao menos quem me ensinou.

A única certeza que tenho é que serei eternamente grata a essa pessoa - seja lá quem for - por ter me introduzido nesse esporte que moldou grande parte da minha infância, adolescência e começo da juventude.

Também não posso dizer qual é o meio dessa história, muito menos qual será o final, já que essas portas ainda não foram fechadas.

Então vamos seguir, mesmo sem saber a direção, e ver no que vai dar.

Afinal, talvez a melhor parte de viver seja justamente essa:
o mistério de ir, mesmo sem saber para onde se está indo.
  • UMA VISITA A MEMÓRIA
Há alguns dias eu estava procurando por palhas (isso mesmo, você não entendeu errado).Uma amiga precisava delas para um trabalho, e eu tinha quase certeza de que havia visto uma sacola cheia de palhas no armário.

Um armário que fica com várias coisas aleatórias.

Tenho certeza que você tem um desses em sua casa: uma gaveta, um armário ou até mesmo um cômodo inteiro.

Daquele tipo em que guardamos memórias físicas e palpáveis - coisas que acreditamos que, em algum momento, talvez ainda nos sejam úteis.

Enfim,durante essa intensa busca... eu os vi. No fundo do armário, quase escondidos entre coisas esquecidas, estavam eles.

Pretos, amarelos, meio carcomidos pelo tempo - não vou negar -, mas ainda assim belos.

Meus patins.
  • DESEQUILÍBRIO
Eu sou uma pessoa um pouco desequilibrada.

Não calma - não sou louca. É um desequilíbrio físico mesmo.

Eu caio muito. E quando era criança tinha certa dificuldade em ficar simplesmente em pé. Na maioria das vezes, se fico muito tempo parada, acabo caindo.

O que é irônico.

Porque, quando eu estava sobre rodas, meu equilíbrio era perfeito.

Talvez pela sensação constante de perigo meu corpo acendesse algum tipo de alerta e ficasse mais atento.

Não sei.

O que eu sei é que, por causa dessas quedas constantes, eu aprendi a cair.

Talvez seja por isso que eu gostasse tanto de andar de patins. O medo - e até a vergonha de cair - nunca foram um impedimento para mim.

Não pense que eu era algum tipo de profissional, nada disso.

Eu não sabia frear, não sabia andar de costas e muito menos fazer nenhum tipo de manobra.

Mas eu não tinha medo de tentar.
  • A QUEDA
Teve uma noite- nunca me esquecerei- em que minha família estava na rua.

Em dias quentes de verão, cada morador pegava sua cadeira de plástico e a colocava na calçada de casa. Ali ficavam jogando conversa fora, rindo, com suas garrafinhas de água ao lado.

Minha família fazia parte dessa turma.

Enquanto isso eu e minha prima estávamos andando de patins.
Ela fazia um verdadeiro show: corria, girava, pulava.

e eu... andava

Naquele momento, meu ego infantil me disse que, se ela conseguia, eu também conseguiria.

Pois bem.

Reuni toda a coragem que tinha, peguei impulso, levantei a perna...

E antes mesmo de tirar as rodas do chão, eu caí.

Com força.

No asfalto quente.

Meu mundo naquele momento ficou em câmera lenta. As risadas e os gritos ao fundo se tornaram apenas vozes abafadas.

Senti uma luz - daquelas de holofote - apontada diretamente para mim.

Eu só queria que um buraco se abrisse no chão para que eu pudesse entrar.

Fiz uma cara de choro em direção a minha mãe.

O que ela disse?

-Tá sangrando?
-Consegue levantar?
-Quer continuar ?

Se as respostas fossem "não", "sim" e "sim", ela falava:

-Então sacode a poeira, levanta, e tenta de novo.

Não porque ela não se importava.
Mas porque, às vezes, a única forma de aprender a levantar… é caindo.

Lição aprendida.

Levantei... e caí mais oito vezes naquela mesma noite.

E existe algo importante nisso: as pessoas precisam ver você se levantar e tentar novamente.

Caso contrário, a sua queda será a última lembrança que terão de você.

E não se esqueça, a maior vergonha sempre será a próxima.
  • VELHOS AMIGOS
Meu momento favorito com eles era ir até a pista de skate e descer aqueles morros e escadas. Eu me divertia muito.

Isso durou até os primeiros meses de excitação da redescoberta dos meus patins.

Assim é o meu relacionamento com eles.
Igual àquela amizade em que as pessoas não trocam mensagens nem se ligam no dia a dia. Mas, quando se encontram têm conversas para dar e vender.

Não costumo andar com frenquência, porém quando coloco os patins nos pés sinto algo parecido com um abraço. Uma nostalgia.
Uma intimidade com as rodas que tenho com poucas coisas na vida.

E automaticamente me sinto com 12 anos novamente.

Não sei quando irei andar outra vez.

Só que esses dias eu os vi, no fundo do armário, quase escondidos entre coisas esquecidas.

E me senti equilibrada.

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